Carreira
O orgulho de dar conta de tudo pode travar sua carreira
Augusto Oliveira · 02 de outubro de 2026

Imagine um profissional que acaba de assumir sua primeira equipe. Ele conhece o serviço, tem disposição e quer corresponder à confiança que recebeu. Na primeira semana, surge um conflito entre dois funcionários. Ele adia a conversa porque nunca precisou lidar com aquilo e teme que pedir orientação coloque sua capacidade em dúvida. Os dias passam, o problema cresce e a equipe percebe a dificuldade. Uma pergunta feita no começo poderia ter ajudado. Mas admitir que precisava aprender parecia mais arriscado do que seguir sem saber como agir. Comecei como servente de obras, aos 15 anos, em 1989. Passei por funções como encarregado e mestre de obras, busquei formação técnica e me tornei engenheiro civil. Em 2020, fundei a Constremat Engenharia. Quando olho para esse caminho, penso nas diferentes responsabilidades de cada função. Saber executar um serviço e estar preparado para conduzir uma empresa exigem aprendizados diferentes. Cada nova responsabilidade exige aprendizado Um bom profissional pode ser excelente na execução e ainda precisar aprender a orientar uma equipe. Pode conhecer uma obra de ponta a ponta e ter dúvidas sobre como apresentar uma proposta comercial. A experiência que ele acumulou continua valiosa, mas há perguntas que só aparecem quando a responsabilidade muda. O problema começa quando a pessoa sente que seu cargo a obriga a ter todas as respostas. Ela evita perguntar, recebe qualquer correção como uma ofensa e passa a defender decisões que ainda nem examinou direito. Quem trabalha por perto aprende a ficar calado. Assim, informações que poderiam ajudar deixam de chegar. Em uma obra, eu considero essencial ouvir quem vai executar o que foi planejado. Um profissional pode apontar uma dificuldade que passou despercebida no escritório. A decisão continua sendo de quem responde pelo trabalho, agora com mais elementos para avaliar o que precisa ser feito. Uma conversa de mentoria precisa caber na vida real Vejo a mentoria como um espaço para examinar essas dúvidas com alguém que tenha experiência e disposição para escutar. Para isso, a conversa precisa ir além de frases de incentivo. Quem pede orientação deve conseguir explicar a situação sem receio de ser ridicularizado. Pense em alguém que deseja abrir uma empresa, trabalha o dia inteiro e sustenta a família. Antes de sugerir uma mudança, é preciso entender suas condições. Quanto tempo tem para se preparar? Quais responsabilidades precisa manter? O que ainda desconhece sobre o negócio? Um conselho só começa a ser útil quando considera a vida de quem vai colocá-lo em prática. Também cabe a quem orienta reconhecer os limites da própria experiência. O caminho que funcionou há dez anos pode exigir adaptações hoje. Um mentor precisa explicar as razões de seu conselho e dar espaço para que a pessoa faça perguntas, discorde e decida por si mesma. A confiança para perguntar também depende do ambiente Seria injusto atribuir toda dificuldade de pedir ajuda ao orgulho. Há ambientes em que uma dúvida vira motivo de humilhação. Para profissionais negros, o receio de ter a competência colocada em dúvida também precisa ser compreendido à luz do racismo. Uma orientação responsável leva essa realidade a sério. É por isso que vejo valor em espaços como a Negro Mentoria. Poder conversar sobre uma dificuldade sem precisar defender o próprio direito de estar ali faz diferença. Quem já ocupa uma posição de liderança pode contribuir ouvindo com respeito e compartilhando o que sabe, inclusive os erros e as limitações das próprias escolhas. Se há uma decisão profissional que você vem adiando, escreva o que está dificultando o próximo passo. Procure alguém com experiência naquela situação e leve uma pergunta concreta. Pode ser esta: “Vou assumir uma equipe pela primeira vez. O que preciso aprender antes de começar?” Essa pergunta já oferece um ponto de partida para uma conversa útil.
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